



Me chegou a mão uma caixinha de papelão velha e desbotada, na tampa estava escrito Mappin em vermelho. Dentro havia muitas fotos, algumas coloridas... outras preto&branco. Os tamanhos e formatos também se mostraram variados: grandonas, quadradinhas, 3x4. Nelas vi minha tia Teresa -que morreu ainda criança de meningite - dando os primeiros passos e atrás dela meu pai, tentando segurá-la. Vi meu pai-bebê sentado e sorrindo, meu pai-criança brincando em um carrinho ou com um gato ou junto de três crianças de olhos bem puxados. Ainda, havia meu avô em diferentes momentos de sua profissão de garçom - terno branco e gravata borboleta preta, impecável! Ele também foi jovem e se reunia com os amigos para jogar cartas, fumar, beber e tocar violão. A fase de criança ele também teve, de baixo de uma árvore com os irmãos e as irmãs gêmeas. Minha avó sempre linda e elegante nos idos dos anos 1950: cabelo arrumado, corpo esguio, roupa ajustada. Ela segurava meu pai-bebê com um braço e na mão estava a mamadeira. Todas essas figuras caminhavam numa área verde em diferentes anos de suas vidas. Nas fotos coloridas via-se minha mãe e meu pai - juntos. Na caixinha, bem no fundo, encontrei um recorte de jornal... era o irmão da minha avó - sindicalista e candidato a deputado... ali também estava a Certidão de nascimento da minha irmã - 06/08/1992... por último avistei uma folha de caderno - carta de meu pai ( em letra de criança) à minha avó em razão do Dia das Mães ... Os momentos e histórias por detrás daquelas fotos nunca chegarão aos meus ouvidos em detalhes, seja porque os anos apagam as recordações, seja pela falta de contato e de diálogo sentimental que tenho com as duas testemunhas daqueles fatos. Não conheço meu pai e meu avô. Minha vó e minha tia já morreram. Posso montar uma espécie de filme mental com as imagens da caixinha e fiz... faço... farei. Meu melhor presente de aniversário foi a caixinha e a possibilidade de conhecer essa família tão fechada em si. Saber que meu pai e os pais dele devem ter sofrido uma quebra profunda ao perder a criança e que meu avô e seu filho vivenciaram outro golpe perdendo a esposa e a mãe. Todos os fatos estão no passado distante mas será que são itens superados sem cicatrizes?
A caixinha do Mappin me fez filosofar sobre dias de sol e família... 1950...1960...1980...

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