O cara surgiu do nada e me cutucou o braço, levantei irritada sem entender que diabo aquele infeliz poderia querer... caramba, era madrugada, meu ônibus só sairia dalí três horas, a rodoviária estava vazia e fria... será que não se pode dormir em paz nem mesmo no fim do mundo? Ele veio com uma conversa furada, me ofereceu cigarro...
- Não fumo...
Diante a negativa rispida continuou ali do meu lado, tragando e soltando fumaça. Nem quando resolvo buscar o sossego posso encontrá-lo... demasiado ruim. Ele contava sobre jogos de cartas e bebidas vagabundas... tudo intercalado com cantadas baratas. Levantei e o deixei lá. Fui p/ a rua. Sentei no meio fio e logo um cachorro magrelo e velho veio procurar algo nos meus pés... sentou-se a minha frente e ficou me fitando, parecia tentar enxergar minha alma, um tanto estranho.
Era tudo escuro e a neblina era pesada... os postes de iluminação eram poucos e eles jogavam uma luz amarela fraca, não conseguia nem avistar o chão do outro lado da rua.
Deixei tudo e todos. Levava comigo o "livro dos livros" - na minha opinião, 10 peças de roupa e quinze mil em dinheiro... naquele momento era o que eu ainda precisava. Preparava meu ânimo para "não mais querer", "não mais ter"... assim quem sabe pudesse entender e apreciar a minha vida cujo pronome possessivo soava vão, falso p/ caramba.
Desenhei na leve areia que cobria a rua com pedras, o cachorro continuava comigo mas desistira de atingir minha alma... dormia encolhido
- Ah, meu filho, ninguém mais conseguirá...
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